Texto III da Trilogia: Madrastas: SER, TER e ATURAR. Minha filha tem uma madrasta. E agora??

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E agora?

Pra encerrar nossa Trilogia sobre MADRASTAS (já publicamos outros dois textos aqui), ficamos com a história de quem teve (e tem) que aturar a convivência da filha pequena com uma mulher estranha (ok, nem tão estranha assim, a madrasta neste caso sou eu!). A poetisa Lívia Gusmão é a mãe da minha enteada. Para conhecer seu trabalho, ela é poeta e mídias sociais também, recomendamos visitar o site dela: AQUI. Nós agradecemos muito sua colaboração!

Minha filha tem uma madrasta. E agora??

Um belo dia, meu casamento bugou. Não, não foi um belo dia e nem foi tão de repente. Mas foi como deveria ser. E, então, um belo dia minha filha voltou da casa do pai falando sobre uma amiga dele. Aham, amiga como um dia também fui, sei… Qual não foi minha surpresa ao ver que eu conhecia a amiga dos dois há muito mais tempo que eles! Eis que meu ex-marido estava casado com uma colega minha de infância, com a qual estudei por 5 anos. Por acaso, é a Carol, dona deste blog rs…

Levei um tremendo susto e, confesso, tive uma ponta de ciúme no início dessa história. Tudo bem meu ex-marido se ajeitar em bem menos tempo que seis meses, não era esse o problema – até porque o casamento acabou para que pudéssemos recomeçar cada um do seu lado e sem ressentimentos. Mas, como assim colocar uma outra mulher na vida de minha filha?! Foi a morte. Não, foi um coma. E rápido. 
Logo percebi o carinho com que Malu falava de minha antiga conhecida e comecei a me empolgar com isso. Era muito mais uma segurança pra mim do que algo para ficar com dor de cotovelo. E, para melhorar, logo pintou a gravidez de Carol… Helena estava por vir. Achei ótimo porque não penso em ser mãe de novo, apesar de saber que seria bom para Malu ter um irmão. Nesse ponto da relação entre as duas, Malu e Carol, eu já ficava era feliz por minha filha passar quartas e domingos com o pai e a madrasta. Aliás, na minha opinião, não existe madrasta quando ainda se tem uma mãe na parada. Então, Carol foi, para Malu, desde sempre uma boa amiga que, diga-se de passagem, deu à minha filha o melhor dia da vida dela. Foi – e é até hoje – assim que Malu se refere à data de nascimento da irmã.
Como eu poderia ter qualquer sentimento negativo por alguém que fez e faz minha filha mais feliz? Creio que essa confiança tenha sido essencial para que Malu enfrentasse a separação com naturalidade e desse sequência à vida, sobretudo ao passar por isso aos 5 anos de idade. Além do mais, Carol não só deu uma irmã à minha filha, como uma priminha nova, tios e avós muito divertidos!
A vida é mais do que somos como indivíduos. Ela é o que podemos ser unidos. Agora os aniversários de Malu são bem mais bacanas, com a família cada vez maior.
Lívia Gusmão

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Para ler o texto I da Trilogia, sobre SER Madrasta clique AQUI.

Para ler o texto II da Trilogia, sobre  TER Madrasta clique  AQUI.

Protetores de berço/kit berço

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Tudo cor de amora.

Lindo kit berço cor de amora. Argh!

Este post deveria se chamar: “Protetores de berço – e mais uma dúzia de quinquilharias desnecessárias que te disseram pra comprar na gravidez“. Mas resolvi falar só do kit berço mesmo.

São lindos. São fofos. Deixam o quarto do bebê cheio, delicado. Personagens, fadas, borboletas, bonecas. Bolas, carrinhos, selva. Tem os temáticos, que acompanham os quartos. Com macaquinhos, marrons, bege. Se quiser combinar com a cama de outra criança ou cama-babá, como chamam, também tem. Os americanos são maravilhosos. Você pode bordar os nomes. Tá na moda, mas é mais caro.

Aqui na minha cidade, se for mandar fazer um kit destes chega perto dos 700 reais. Lençol, cobertores, laterais, cabeceira, capas de almofada, travesseiro e até bandô de cortina combinando. Se for comprar no centro da cidade, mais barato, paga mais de 150 no mínimo.

Quando engravidei da Helena, quis deixar o quarto bonitinho e caí nesta balela. Não tinha mais dinheiro, afinal já tinha caído numa dúzia de outras conversas que mãe de primeira viagem sempre cai. Mas acabei achando um uma pechincha absurda por 70 reais numa loja da fábrica. Era um teste, não fizeram outros, só o nosso. Rosinha, com póas…uma fofurice.

Quem acompanha a gente sabe que Helena jamais dormiu no berço. O negócio dela é mesmo agarrar a camisa da mãe. Chutar a minha cara. Mamar mil vezes na noite até hoje. Mas, às vezes, de dia, eu a colocava lá (num dia milagroso). E depois de meia hora, ela tinha arrancado o véu cor-de-rosa lindo que a protegia dos mosquitos. Estava comendo os lacinhos. Se agarrava nas almofadas das laterais do berço e puxava até ficarem em cima dela.

Este é hoje meu quarto de sonho pra Helena.

Este é hoje meu quarto de sonho pra Helena.

Fui depenando o coitado do berço… e ficou mesmo só o colchão e um lençol de elástico branco. Além disso, o berço foi pro meu quarto. Fim do sonho cor-de-rosa de bailarina.

Mas é assim que ela dorme feliz.

Ela gosta assim!

Hoje, no programa Mãe e Cia, da GNT, falaram sobre a temida “síndrome da morte súbita”, que é quando o neném pára de respirar sem causa aparente, e acontece especialmente das 2 aos 4 meses. Exatamente a fase que ela começou a agarrar as coisas pra cima dela. Eles falaram que tudo que fica em cima do berço faz mal pro bebê. Travesseiros (esta mania brasileira), protetores, bichinhos, véu. É pra tirar tudo e deixar pelado e feio, como o da Helena.

Sem contar que juntam poeira pra caramba! E, se você for como eu, que não tem tempo pra nada, e esquece de trocar o lençol da criança por quase um mês…vai adorar ter menos coisas pra cuidar.

Assim é mais seguro.

Mães, difícil resistir à sandice das compras neo-natais, mas se a gente ama a criatura é melhor fazer o melhor pra ela, e não pra nossa mania de fofurice. Sem cuti-cuti, é muito mais seguro. E mais barato.

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Dicas de segurança no berço:  babyCenter

Sobre morte súbita: site da Pampers

Lindos kit berço você encontra aqui: Elo7

Gratidão ao fim do ano

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Obrigada.

Pela paciência que eu descobri que eu tinha.

Pelo amor absolutamente infinito que eu achei fora de mim.

Por ter me dado a chance de te trazer ao mundo da forma como eu sonhei.

Por eu ter forças e braços pra te carregar sempre que você me pede ou precisa.

Por não ter faltado trabalho ou dinheiro para cuidar de você e da gente.

Obrigada por me fazer ver que sou menos importante do que eu pensava,

e por eu ser a pessoa mais importante do mundo pra você.

Obrigada por este primeiro ano como mãe: jamais fui tão feliz.

Por nós, por você, eu te prometo não morrer nunca. Nunca te deixar.

Eu prometo trabalhar sem reclamar.

Eu prometo achar paciência no fim do mundo pra não me cansar de te dizer não, não pode.

Nada mais faz sentido sem você.

Obrigada por me fazer viver mais e melhor.

Que o nosso primeiro fim de ano juntas seja mais que eu tampando seus ouvidos pra te proteger dos fogos:

que transborde tanto amor da gente, que inspire os outros, inspire o mundo, pra que ele seja um lugar tão lindo quanto você merece.

Te amo, filha.

Os gatos é que são felizes

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Todo mundo sabe que se conselho fosse bom a gente não dava com TANTA generosidade e falta de parcimônia. Observe hoje, só hoje, como são as conversas. Se quiser ser mais específico, observe as conversas em torno de uma mãe. Todos somos conselheiros, uns mais compulsivos e “preocupados”, mas todos nós nos comportamos o tempo todo como se pudéssemos solucionar facilmente todos os problemas DOS OUTROS, e pior, como se eles, os outros, sempre quisessem e precisassem das nossas soluções mágicas para toda e qualquer coisa. Nos comportamos como se os problemas alheios fossem também nossos.

 Nos falta sensibilidade para perceber que o outro às vezes, na maioria das vezes por sinal, não precisa ou não quer conselho algum, nem quando parece desesperado ou está despejando queixas em cima da gente. Observe. Quase sempre, o outro (ou a gente) só quer presença, apoio, ouvidos, vez ou outra ombro e QUASE NUNCA conselhos, soluções ou ajuda. Procurar solucionar problemas dos outros, que muitas vezes só a gente está vendo, pode ser pura perda de tempo e acabar em desgaste e amolação. Cada um vê a vida e as situações de um jeito e há pessoas que não enxergam em todas as situações problemas a serem solucionados (ainda que estejam cercadas por eles). Aconselhamos demais, e será que a nossa preocupação em ajudar de fato é proporcional à quantidade de pitacos que distribuímos? Será que é mesmo pura vontade de ajudar? Talvez seja parte de termos necessidade de provar (pra quem mesmo?) que dominamos algo. Pode ser necessidade de auto-afirmação. Pode ser muita coisa, só não pode ser sempre vontade de ajudar, não é possível que seja só isso. Ou é?

 Eu, quando meu filho nasceu, rejeitei todos os conselhos que recebi. Todos. Eu estava contente e me virando bem. Eu não via problema no modo como o estava criando. Os outros viam, o tempo todo, e adivinha? Me davam conselhos, muitos conselhos. Quanto mais eu recebia, mais rejeitava. E quanto mais rejeitava, mais recebia. Era tanto que comecei a rejeitar por princípio, por birra, só de raiva. Tinha conselho que era precioso, mas que eu deixei de ouvir porque já não podia mais com tanto conselho, observação, crítica, dica, palpite, pitaco, segredinho, receitinha… Tapei os ouvidos. Uma pena. Sei que perdi dicas valiosas e conversas incríveis com pessoas de quem eu realmente gosto muito. Fazer o quê?

 Não deu pra não ser como foi. Não deu pra não surtar. Eu não me preparei para não me afetar com todos ao meu redor tentando me dizer o que fazer. Não me preparei para lidar com essa necessidade, que quase todos nós seres humanos temos (exceto os monges tibetanos?), de não perder sequer uma oportunidade de discorrer sobre o que achamos que dominamos mesmo que isso as vezes custe a irritação ou a rejeição do outro. Eu me irritei, me tranquei em casa com o bebê pra não ter que escutar nada além do que eu precisava mesmo ouvir: o choro do bebê. Não podia mais com uma mamãezinha sequer a me dizer o que fazer. Me tirava do sério ser sempre colocada na posição de aprendiz, neófita, caloura, tola completa. Surtei mandei todo mundo embora. Poderia ter sido diferente? Acho que sim. Mas já foi. Fica pra próxima. TALVEZ um dia eu consiga fazer diferente. Uma coisa eu já decidi, no mínimo vou me irritar menos.

 Some-se a tudo isso o fato de que eu, com algumas coisas, sou daquelas que não gosta de ganhar a receita pronta. Com filho eu queria descobrir sozinha como se fazia. Queria VIVER todas as coisas. Eu queria dar uma de gata, sabe? Me entocar, lamber a cria (como achasse que devesse lamber) e só. E de preferência sem ninguém por perto “inspecionando”, corrigindo, me vendo errar, querendo pôr a mão, querendo me mostrar “como é que se faz”. Eu quis ser gata, estar prenha, poder parir e amamentar o filhote fosse como fosse. Pelo menos por uns meses ansiava por uma licença da minha humanidade, da minha sociabilidade, do conhecimento, da técnica, da manha, DO MUNDO. Queria que fosse como tivesse que ser, eu e o bebê. Gata se esconde pra parir, eu também queria me esconder . Foi uma reação que a obstetra chamou de “inteligência dos hormônios” a me ajudar a me concentrar no bebê. Achei legal a história que a obstetra contou, será que inventou só pra não me contrariar??? Vai saber…

 Já a psicóloga achou que era outra coisa (depressão pós-parto?). Nem tanto. Bom, até hoje não sei o que foi aquela “coisa” que me deu. Acho que as duas, a psicóloga e a obstetra, estavam certas. Todas as mudanças (hormonais, psíquicas e sociais) pelas quais se passa desde o resultado positivo, passando pela gravidez até o pós-parto fazem mesmo isso (que pode ou não ser depressão pós-parto) com parte das mulheres. Tem mulher que reage de outro jeito, com pânico de ficar só com o bebê e querendo estar cercada de gente para ajudá-la e ensinar a ela como fazer. Sem julgamento. Cada um, cada um. Eu fiquei com vontade de fazer tudo por mim mesma.

 Mas quem disse que a sociedade admite uma mãe inexperiente (ainda que ela tenha cuidado de todas as suas bonecas e irmãos mais novos) a descobrir na prática como é que se cuida de um bebê? Não, a gente não admite. O bebê é patrimônio da humanidade, ele não pertence à mãe, nem quando está na barriga. O bebê é coletivo e a coletividade, sentinela, toma conta do que deve ser feito, cuida para que nada saia errado, zela pela preservação da espécie. Bonito isso, mas bem difícil de aguentar. Eu queria ser minha parte animal, mas ninguem deixava. Em nome da transmissão do legado, do respeito pelas mais velhas e experientes e do medo que eu supostamente devia ter diante do que eu hipoteticamente desconhecia completamente, eu era coagida a ouvir e a agir de acordo com o que escutava. Uma cobrança sem fim.

 Deixar de ouvir conselhos e querer fazer por mim mesma soou pra muita gente como um grande desrespeito a todo o matriarcado. Como assim eu ia me meter a besta? Presunçosa, egoísta, orgulhosa, louca. Me meti a besta sim e tive de seguir sozinha até o fim (já que ninguém queria ajudar se não fosse pra bancar o mestre conselheiro sabe tudo). Tem gente que nunca mais me amou como antes, paciência. Realmente achei que quem estava passando por um maremoto hormonal e psíquico em função de todas as mudanças do pós-parto tinha mais necessidade de compreensão que todos os outros seres do planeta e, na impossibilidade de ser compreendida em minhas escolhas, escolhi não precisar de ninguém. Cada um sabe a solidão que é capaz de suportar. E eis que aqui estamos vivos e felizes obrigada, a despeito de todas as pragas rogadas. Sobrevivi e aprendi muito sobre mim e sobre os outros. Até já virei mãe pitaqueira. Acontece. Com todas.

 No fundo, ao observar a “aflição” das pessoas (invariavelmente mulheres) em querer “ajudar” com o meu bebê, aprendi que todas as mulheres são meio macacas. Observem. As mulheres, eu inclusive, surtam ao escutarem um choro de bebê, de qualquer um. Um bebê chora: todas as mulheres enlouquecem ao redor querendo fazê-lo parar de chorar, uma reação meio visceral até. Começa o “não é fome?”, “não é sono?”, “ele não tá com cólica?”, “ele só pode estar com calor, tira a blusa!”, “é sede”, “você trocou a fralda?”… E fica isso até se tentar de tudo ou até o bebê parar de chorar e começar os “viu, eu não falei?”, “olha, da próxima vez…”, “é assim mesmo, o meu filho…” E isso a cada choro. Cerque-se uma mãe com um bebê de dez mulheres para “ajudar” e esta conhecerá o inferno na Terra. Ajuda é muito bom quando não atrapalha, quando não mina no “ajudado” a auto-estima e a confiança na própria capacidade, quando não invade o espaço. Somos macacos socializados e esperar o outro pedir ajuda é um grande sinal de humanidade. Acho que somos muito mais animais do que pensamos, muito mais, mas gostamos de nos comportar as vezes como gente, então, sejamos coerentes.

 Ainda não descobri como se faz para equilibrar as coisas. Como não se deixar levar ao limite da irritação com os pitacos, como não deixar de ser generosa com a vontade das outras de mostrar conhecimento e de no fundo, no fundo querer mesmo é cuidar um pouco do bebê. Ajudaria bastante se as macacas de plantão também começassem a expressar vontade de cuidar um pouco do bebê com “estou com vontade de cuidar um pouco do bebê” ao invés de “deixa eu te mostrar como é que faz”. Cada um sabe a “inteligência emocional” que tem. Ou que não tem.

 Escutei outro dia um negócio que diz que o choro do bebê irrita a mãe MAIS DO QUE A QUALQUER OUTRA PESSOA e que isso é um mecanismo da espécie para que ela, a mãe, atenda logo as necessidades da cria. Isso deve ser sinal de que quem tem que “assumir a bucha” é a mãe mesmo. Mas se todas as outras mulheres também se afetam tanto com o choro do bebê isto pode ser sinal de que nossa espécie tem uma inteligência também no sentido de que todas as mulheres devam estar de plantão caso a mãe não consiga atender o bebê. Hum… Preciso ir para a África observar os primatas, talvez eles me deem todas as respostas que não estou conseguindo encontrar observando os homens. Mas se as vezes as mulheres se comportam como gatas, de nada me adiantaria entender só os primatas… Especiezinha complicada essa tal de espécie humana… animais não ouvem nem dão conselhos, nem ficam horas pensando sobre o significado oculto dos conselhos. Será que banquei a gata por uma necessidade inconsciente de deixar de ser humana? Ah vá! Só mesmo um humano pra perder tempo pensando uma coisa dessas… Os gatos é que são felizes.

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O trabalho Os gatos é que são felizes de Elba Oliveira foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

Este texto possui uma licença Creative Commons BY-NC-SA 3.0. Você pode copiar e redistribuir este texto na rede. Porém, pedimos que o nome da autora e o link para o post original sejam informados claramente. Disseminar informação na internet também significa informar a seus leitores quem a produziu.

Links interessantes para continuar pensando sobre o assunto:

Eu lá no mamatraca dando conselho…

Sobre depressão pós-parto…

http://guiadobebe.uol.com.br/depressao-pos-parto/

Madrastas: SER, TER e ATURAR – Texto II da Trilogia. Eu tive madrastas, uma penca delas.

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Se tem uma coisa da qual eu entendo é de ter madrasta. Meus pais se separaram quando eu era bem pequena, e como na “partilha” acabei ficando com o meu pai, tive madrastas. Duas “fixas” mais as “temporárias”.

A primeira temporária era muito legal, foi bem rápida. Era tão legal que ofereceu o quintalzão pra eu poder montar uma piscina que me divertia horrores (de quebra permitindo que os pombinhos ficassem em paz). Um dia cheguei lá pra nadar toda feliz, e adivinha? O cachorro dela tinha mordido a piscina toda (será que ele também me odiava?) e não só não compraram outra piscina pra colocar no lugar como sequer chamaram a polícia para o cachorro. Que trauma de infância meu Deus!!! Estou querendo minha piscina até hoje. Anos de terapia para superar essa perda. Meu filho deve ter umas dezoito piscinas infláveis. Ela era muito legal. Quase me deixou cair da ponte do Paraíba (fico pensando se ela não tava tentando me eliminar). A casa dela ficava do outro lado da ponte (que lindo, separados pelo rio, unidos pela ponte) que atravessávamos de mãos dadas, eu na beirada e ela do lado de dentro, fora de perigo. Um dia escorreguei com a perna por baixo da grade e quase que tchibum! Não era um “fio d’água” gente… era o Rio Paraíba do Sul!!!! Ah se eu não a amasse tanto… Segurei a mão dela com tanto amor que devo ter destroncado pelo menos uns cinco dedos. Maldita. Foi bem rápida, graças a Deus. Senão possivelmente eu não estaria aqui para contar a história e que perda seria essa para a humanidade, não?!? Mas falando sério, ela até que era legal, de verdade.

 Depois veio a primeira fixa. Ai senhor, dai-me forças para “relatar”. Pra começar, nossa casa virou um quartel general e, talvez por isso, minha mãe tenha dito uma vez que eu tenho síndrome de madrasta pois minha casa também acabou virando quase um campo de concentração. Tudo limpo, tudo arrumado, nada fora do lugar. Tenso. Além disso, eu tinha umas obrigações muito chatas como lavar meus tênnis todo santo sábado com escovinha de dente e escolher o feijão da semana toda. Feijões, uma pilha de feijões para uma pobre criança escolher gente. Um dia cansei e decidi que naquela pilha só tinha uns cinco feijõeszinhos bons e que o resto tava podre e joguei um kilo de feijão no lixo… Liberdade!!! Nunca mais me mandaram escolher feijão. Eu tenho ódio de lavar tennis até hoje e mastigo pedra três vezes por semana, mas não escolho feijão nunca mais, juro! Tirar o pó dos móveis tudo bem, mas também nunca mais sequei louça pra guardar, que fique no escorredor até empenar, ora por que não?!? Odiava ter que entregar o cartão do Dia das Mães para “ela”, odiava ter que ficar quieta toda vez que ela me perguntava se eu gostava mais dela ou da minha mãe, odiava ter que responder ao interrogatório sobre as saídas do meu pai comigo. Odiava ser piolhenta e ter que depender dela para tirar os piolhos da minha cabeça. A lista não tem fim, muito rancor nesse coraçãozinho. Pronto falei. Todo mundo achava que ela era ótima comigo e fazia questão de me dizer isso, o que me deixava bem confusa. Só quem sabe da relação madrasta-enteado é a madrasta e o enteado. Pai não sabe, mãe não sabe, tia não sabe, professora não sabe, ninguém sabe. Mas juro que não sou ingrata, só não consigo me lembrar de coisas digamos alegres, leves, divertidas dessa época com ela, embora ela cuidasse de tudo para que não me faltasse nada em relação à alimentação, higiene, segurança, educação. Ela nunca tinha sido mãe e vinha de uma história familiar meio dura também, então, tá tudo certo, pronto falei, pronto perdoei. Passemos adiante.

 Nada como uma madrasta após a outra. A segunda temporária era ótima. Tinha o mesmo nome da minha mãe (e olha que é um nome absolutamente incomum), o mesmo corte de cabelo da minha mãe, fumava o mesmo Free. Ela e minha mãe faziam aniversário no mesmo dia. Ainda não sei porque eu gostava tanto dela, por que será, hein?!? Acho que é porque ela tinha um ótimo humor…como a minha mãe. Dá pra acreditar? Fala sério! É sério. Nada de conversa fiada, historinha mirabolante essa minha, não?!? E a saga continua…

 Veio então a segunda fixa e atual, a sobrevivente. Como nós duas já lavamos a roupa suja do passado, não tenho problemas em dizer que ela contava meus segredos (que eu dividia na maior confiança com ela) para o meu pai. Dedurava tudo o que eu e meus irmãos aprontávamos durante o dia (claro, era obrigação dela) e, por causa disso, rolavam sempre só castigos e brigas quando meu pai chegava do trabalho. Muitas brigas. As vezes por coisas tolas como da vez que perdi a chave de casa e de quando deixei a louça pro dia seguinte porque queria assistir à final do brasileirão. Sem rancores dessa madrasta malvada também, de verdade. Coitada, eu mesma não teria feito melhor. Com menos de trinta anos assumir três filhos adolescentes, cuidando de tudo… Comida, casa, roupa, nada fácil. Eu disse pra ela e repito, fosse eu a madrasta teria jogado os três pela janela (desde que morasse no térreo). Ela fazia pizza enrolada que eu adorava, arroz soltinho e maionese inesquecíveis e tinha e tem um ótimo humor, alto astral, energia lá em cima sempre, acho que nunca a vi reclamando ou triste e é claro, que como todo mundo, ela tá cheia de motivos para ficar pra baixo pelo menos de vez em quando. Como eu, gostava de ouvir música bem alta e, apesar de não ter conseguido me ensinar a ter bom humor 100% do tempo (ao invés de 10%), me ensinou a lavar roupa no tanque (coisa que foi super útil quando eu ainda não tinha máquina de lavar roupa na faculdade).

 Foram quatro madrastas. Super eclética eu, né ?! Quatro, e completamente diferentes umas das outras, a me proporcionarem as mais diversas experiências sem as quais eu não seria o que hoje eu sou. Garotinha afortunada, não é mesmo?!? Eu me acho. Sério.

 Tava aí se achando o coitado de ter tido uma madrasta? Desculpa aí, mas só perco mesmo pra Branca de Neve que, apesar ter tido uma só, ganhou uma caprichada que valia por bem mais que quatro. Entendo mesmo de ter madrasta, de sobreviver a elas, de odiá-las e amá-las. Tudo é confuso demais, é muito sentimento misturado, muita dúvida em relação ao que se sente e ao que o outro (nesse caso a outra) sente. Quase sempre demora-se anos para entender, processar e elaborar os vividos porque, normalmente, as coisas vão acontecendo como dá, sem muita conversa sobre, tudo muito velado, cheio de mal-entendidos e no improviso. Acerta-se aqui, perdoa-se ali, gargalha-se acolá e um dia a gente acaba rindo de tudo. Ou não. Ficam as lembranças, as marcas e as lições quem sabe para o caso de algum dia eu precisar ser madrasta. Deus-me-livre! De verdade! Isso não desejo pra ninguém, nem para a pior das madrastras…

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O trabalho Eu tive madrastas, uma penca delas. de Elba Oliveira foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

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Para ler o texto I da Trilogia, sobre Ser Madastra clique AQUI

Para ler o texto III da Trilogia, sobre Aturar Madrasta do(a) filho(a) clique AQUI

 

Madrastas: SER, TER e ATURAR – Texto I da Trilogia. Eu sou madrasta, e agora?

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Este texto é parte integrante da trilogia que vamos publicar no blog:  SER madrasta (este aqui, por mim que sou madrasta), TER madrasta (por Elba Oliveira, que foi enteada), e ATURAR madrasta (por Lívia Gusmão, colaboradora e mãe da minha enteada).

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Coração de criança não pode ser dividido.

 

Como é difícil escrever sobre um assunto que, além de delicado, te envolve por completo. Eu sou madrasta há dois anos. Coube a mim a tarefa de falar sobre o lado de cá da moeda. O lado das bruxas. Das mulheres chatas. Das velhinhas que colocam Cinderelas pra dormir um sono eterno. Das Nardones (que virou sinônimo de madrasta, por sinal).

Conheci uma mulher que pegou o marido com outra na cama. Na cama deles. E estava grávida de sete meses do FDP tal cara. Quando o bebê nasceu, já separados, o juiz afirmou: você deve sim entregar seu bebê lindo, rosado, gostoso pra aquele crápula pai cuidar de vez em quando. Algumas horinhas por fim de semana. Depois, alguns dias na semana. Sim, ele tem direitos como pai. E a minha conhecida ia no portão entregar o bebê nas mãos de quem? Da tal mulher que viu peladona com o marido dela na cama. Da madrasta do seu filho. Aquela que tinha fodido mudado sua vida junto com o imbecil.

Até eu mesma me casar, era esta a única história de madrasta que eu conhecia de perto. Imagine que começo ruim pra mim! Conheci um cara recém-separado, com uma filha pequena. Quase saí correndo quando soube. Eu me lembro de colar minhas costas na cadeira,  assim que ele me contou. Homem com ex-mulher e filho é problema. Pior, há menos de três meses separado. Pois eu acabei ficando, mesmo morrendo de medo de dar tudo errado.

E como será que a criança iria me ver? Imagine, ser eu a bruxa má? A chata que ela teria que aturar? Aquela que, agora, acordava ao lado do seu pai? Aquela que agora estava sempre no carro (que, aliás, era dos pais dela e ela tinha passado a infância andando pra lá e pra cá com os dois sentados na frente), em casa, nas festas com ela? A estraga-fantasia de um dia os pais retomarem o casamento perdido?

Eu fui morar com o pai dela em dois meses de namoro. Ela ia me odiar, eu tinha certeza. Quando ela ia embora, depois de passar um dia com a gente, eu sentava na cama e chorava. Eu queria tanto agradar, parecia uma besta quadrada. Nunca pensei em ser mãe, não levava jeito, eu achava.

E a mãe dela? Pensei: vai me chamar de vaca, de louca. Vai dificultar tudo. Vai tornar impossível a convivência da criança com o pai. Tudo isso me passava pela cabeça como um turbilhão, enquanto eu, baladeira, animada, me via, de repente, checando febre de criança. Lendo história. Levando pra parquinho. Eu virei mãe-drasta (eita nomezinho horroroso este).

Só que eu vivo uma coisa diferente. Além de gostar muito da menina, a gente se dá bem de verdade. Antes ela vinha pra casa no domingo, e começou a vir três dias por semana. Nossa convivência aumentou bastante, bem como a minha com a mãe dela. Eu tenho um problema bem incomum a maioria das madrastas: eu gosto da ex-mulher. A gente pode conversar por horas. Coitado do pai, que estranha muito a relação até hoje. Mas é bem isso: a gente se dá muito bem e eu gosto dela.

Muita gente me pergunta como é possível ter uma relação tão legal: eu, a minha enteada e a minha ex-mulher (eu carinhosamente a chamo assim). Por isso, decidi falar sobre este assunto no blog. A gente se dá bem pra cacete, mas eu tenho certeza que foi uma mágica conjunção de fatores a responsável por isso. Eu cheguei quando o casamento já tinha acabado. A menina tinha idade pra entender de leve. O ex-marido era tranquilo. A ex-mulher era fofa e falante. Eu não sou ciumenta. A menina era o master-blaster da educação infantil. A minha chegada (e da irmãzinha, depois) estabilizou a vida de todos nós mais ainda.

Lugar de madrasta é de responsa, mas não é de mãe. Dando comida, dando banho, vendo se está bem. É levando na escola, buscando, levando nas festinhas. É afivelando o cinto de segurança, fazendo rabo-de-cavalo. É passando esmalte, fazendo lição, dando bronca. Indo em festinhas de ballet (nunca tem convite pra madrasta. é foda.) Mas não é lugar de mãe. Não é ir em reunião de escola. Não é de decidir o corte de cabelo. Não é de decidir o futuro. Não é dar a mão quando se está doente. A madrasta deve levar a criança pra mãe. E passar a bola.

Lugar de madrasta é ao lado. Pai e mãe, as crianças já tem. Não precisam que nós os substituamos. Nós não faremos melhor que eles. Eles fazem o que podem, o possível e impossível, e lugar de madrasta/padrasto é de ser coadjuvante, não ator principal.

Conheço muita madrasta do mal, do inferno mesmo, e acho que a responsabilidade é do pai que a escolheu. Ele sim, é culpado. Tem que zelar pelos seus filhos, mais do que pelo seu novo casamento/namoro. Mas as madrastas do bem, que é como me intitulo, tem que saber seu lugar e contar com a sorte (no caso, de ter uma ex-mulher fofa, como eu tenho). Ah, e se você não ama os filhos do seu marido, vá embora. Você comprou o pacote inteiro. Completo. Não tem devolução de metade não.

Madrastas não vão a jogos e apresentações?

Às vezes fico triste, porque sei que não sou tão especial assim. Ser mãe e pai é mais legal que ser madrasta. Não é tudo cor-de-rosa.   Até hoje ainda respiro fundo quando a pequena elogia inocente a mamãe (mamãe desenha bonito, mamãe toca piano, mamãe faz isso pra mim, etc). Dá ciúmes. Acho que ela também deve ficar meio pê às vezes, especialmente quando mando a filha dela embora com esmalte azul e amarelo (horrível! tadinha…nossas experiências manicúricas…). Eu tenho meu próprio jeito de pensar e educar, mas faço o melhor possível por todos nós. Tento não interferir nas decisões, mas sem ser ausente ou me omitir. Afinal, estou envolvida na educação e na vida de uma criança que eu não pari. É preciso muito amor e muito jogo de cintura. Na verdade, mais amor que qualquer outra coisa.

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Onde achar mais informações:

- GAAP – Grupo Alerta Alienação Parental: https://www.facebook.com/group.php?gid=114166975283583

- Madrastas do BEM:  http://revistacriativa.globo.com/Criativa/0,19125,ETT954326-2240,00.html

- 100% Madrasta: http://www.robertapalermo.com.br/frame1portugues.html

- Fórum de madrastas: http://madrasta.forumattivo.com/

DESRESPEITO E VIOLÊNCIA NO PARTO – Convite à pesquisa

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“Existem formas de violência que vão além da força física e que, ainda assim, podem ser ainda mais agressivas, mais dominadoras, mais opressoras, pela sutileza com que se escondem no contexto institucional, nas relações sociais e nos significados simbólicos. É a ocorrência e a natureza de um desses tipos de violência, ou de práticas desrespeitosas, que ocorrem em instituições de saúde que queremos alcançar com esta pesquisa: a violência e o desrespeito vivido por mulheres em trabalho de parto, parto e pós-parto imediato.”

A Ligia Moreiras Sena,  Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – UFSC e autora da frase acima vai realizar uma pesquisa pra estudar a ocorrência e a natureza de práticas desrespeitosas, maus tratos e violência no pré-parto, parto e pós-parto em instituições de saúde na percepção de mulheres. 

Participem, super importante !

Link do site:

http://www.cientistaqueviroumae.com.br/