E agora, racista?

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Dia da Conciência Negra agora é nacional. Eba feriado!? Não! Acorda…Tipo Dia do Índio, Dia da Bandeira, sabe? Não, não vai dar pra ir à praia porque não foi criado um feriado nacional. O feriado ficou restrito a algumas cidades em que ele já existia. Virou aquelas datas, que existem basicamente nas escolas, em que se comemora e/ou se discute o assunto ao qual o dia é dedicado.

 Significa dizer que, se você não mora em uma das cidades em que o Dia da Consciência Negra é feriado, não vai poder aproveitar pra viajar. Significa também que você, não necessariamente, será ou se sentirá coagido, por falso moralismo ou pseudo dever cívico, a discutir essa “questão”, a menos é claro, que você tenha sob sua responsabilidade uma criança em idade escolar e, nesse caso, a partir de agora prepare-se para o pior (ou seria melhor?) pois você vai ter que rebolar pra conseguir manter as coisas como elas estão, se você for racista.

 Ah! Desculpa se você milagrosamente não é racista neste país, sendo branco ou preto. Esse texto é para os racistas, como eu, como quase todo mundo. Para os que gostam de ser, para os que fingem que não são e para os que, tristemente, nem percebem que são. Para os racistas pais, tios, avós, irmãos mais velhos que seguem diariamente “educando” crianças para serem, lamentavelmente, racistas.

 Crianças se tornam racistas assumidos quando vivem com adultos racistas assumidos. Aprendem a dissimular racismo ao observarem pessoas importantes para elas disfarçando preconceito ou tendo atitudes desbragadamente incoerentes com seus discursos. Os pequenos reproduzem racismo, sem sequer perceberem que se tornaram preconceituosos, quando o assunto não é adequadamente discutido em casa ou na escola. Para uma criança, referência é, senão tudo, muito.

 O racismo, na maior parte das situações hoje, é sutil. Pouca gente tem coragem de destratar ou injustiçar, aberta e publicamente, alguém por ser preto.Talvez a polícia. Mas a maioria das pessoas faz “sem querer”, faz e disfarça, ri escondido, conta piada de mau gosto, ignora. Atitudes por vezes imperceptíveis, e supostamente inofensivas e justificáveis, do ponto de vista de quem comete e, algumas vezes, até de quem sofre. No entanto, a discriminação é clara e inassimilável do ponto de vista das crianças que a presenciam, pelo menos até que elas comecem a internalizar o preconceito. Criança vê. Vê e se pergunta.

 Se pergunta por qual razão o papai, sempre brincalhão, ficou mudo na última consulta daquele Dr. novo, preto. Se pergunta porque a mamãe contou aquela história esquisita pro papai de não ter conseguido o emprego legal que ela tanto queria por ter tratado, “sem perceber”, como “um funcionario qualquer” (afinal ele era preto) aquele que seria seu chefe. A criança realmente não entende porque a vovó beija tanto a filha loura da vizinha do andar de baixo e nunca beija a filha “pretinha” da vizinha da frente. Entende menos ainda porque a professora elogia todo santo dia o cabelo da Maria Clara Amaral Fernades Veiga do Prado Albuquerque e Brás e nunca elogia as tranças lindas enfeitadas de todas as cores possíveis da Rosileine Kelly. Não entende porque não pode ter boneca preta e porque é tão difícil achar quando finalmente a mamãe resolve comprar. Não entende nada. E o adulto segue “educando” sem maiores explicações, até que a criança entende sem ninguém precisar explicar NADA.

Mas então, pois é. Agora o assunto “virá à baila”. De verdade. As perguntas das crianças vão começar a ser respondidas na escola e elas vão te cobrar coerência com a coerência que só as crianças tem. E como é que você pretende se virar com isso? O que você vai fazer com seu racismo descarado? O que você vai fazer quando a criança tirar o seu racismo do armário e mostrar pra todo mundo? Qual vai ser sua reação quando ela, a criança, além de perceber nitidamente as situações de racismo, estiver cheia de argumentos contra o preconceito pra te nocautear no verbo e na atitude na frente de todo mundo?

 Te prepara racista! A briga vai ser boa. O que você vai fazer? Vai usar da autoridade? Do “respeito pelo mais velho”? Vai justificar com “porque sim”, “porque não”, “eu que sei” e “é assim e pronto”? Vai ficar feio. Não vai dar pra encerrar a conversa. Não vai dar pra fazer bico, mudar de assunto, virar a cara.

“Azedou a marmita”, “a vaca foi pro brejo”, “jogaram a merda toda no ventilador” e “sobrou pra todo mundo”. E é você quem vai ter que limpar dessa vez.

Quem sabe você não consegue voltar ao jardim-de-infância ou trocar de pais pra começar tudo de novo? Zerar e voltar à inocência dos que não tem maldade pra ter a chance de aprender do jeito certo. Não dá pra voltar no tempo ainda, né? E você também não tem culpa, te ensinaram desse jeito. Mas se orienta! Vai ser culpado sim, se não aproveitar a oportunidade de questionar, cessar de reproduzir e começar a voltar atrás. Sempre é tempo de aprender, mudar, recomeçar. Ainda bem.

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O trabalho E agora, racista? de Elba Oliveira foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.

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Links interessantes para continuar pensando sobre o assunto:

http://www.infanciasemracismo.org.br/10-maneiras-de-contribuir/

Fantoches que eu fiz para contar a história linda da menina bonita do laço de fita...

http://grupocontoaconto.blogspot.com/2008/08/menina-bonita-do-lao-de-fita.html

“Era uma vez uma menina linda, linda.
Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos enroladinhos e bem negros.
A pele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e enfeitar com laços de fita coloridas. Ela ficava parecendo uma princesa das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele tinha visto na vida.”

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  1. Pingback: Blogagem Coletiva: Dia da Consciência NegraBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

  2. Ah Elba… Adorei o texto. Muito bom mesmo…
    Mas nas ultimas semanas, perdi o bonde e a esperança; estou voltando pálida para casa. E o pior: sem o talendo de um Drummond.

    Não acredito muito que as escolas trabalharão o tema de forma tão transformadora. Acho que farão desenhos e pinturas, trabalhinhos daqueles bem estereotipantes, perpetuadores.

    Queria sonhar com o contrário, assim encontraria utilidade para os dois anos de Literaturas Africanas que cursei na USP, assim acreditaria em ummundo melhor para nossos filhos. Mas meio que desisti, sabe?

    Beijão, amiga virtual.
    Continue escrevendo suas reflexões maravilhosas.

    • Eu tenho esperança sim Telma, sem ela não dá pra continuar vivo não!!! Temos que tê-la e nos engajar nas coisas, ainda que gratuitamente. Não tem outra saída.

  3. Muito bom o texto. Ácido e contundente. Assim como muitas escolas já estão ensaiando um Dia da Família, em vez de Dia das Mães ou dos Pais, outras tantas começarão a ensaiar reflexões sobre esse tema tão complexo e dolorido.

    bjo.

  4. Elba, eu gostei sim. Mais curto e direto. Tem tanta coisa pra comentar que tem hora que é melhor calar. Sinto mal ter convivido com negros. Na escola (particular), raros.. Na minha rua da infância, somente uma única família. Fui numa festa da escola da minha enteada e fiquei procurando: nenhum.
    Frequento sambas aqui…todos são negros. Sou totalmente minoria, peço licença pra entrar. Me sinto estrangeira. Fazendo coisa errada. Dançando mal e no lugar errado.
    Eles devem se sentir assim, só que todo o tempo.
    Entendi.

  5. Agumas pessoas sentiram falta de mais profundidade, mais elementos, como nos outros textos, mas desta vez quis um texto mais curto e grosso, pra só começar a pensar…
    Isso que você disse sobre se sentir um pouco como eles se sentem é uma das coisas sobre a qual eu queria ter falado, mas deixei de lado. Branco falando sobre sentimento de preto…nem me arrisquei a entrar na questão…impossivel saber o que se passa na cabeça de alguém que, escondido, passa coisas brancas no rosto pra se sentir um pouco branco…Mil outras coisas ficaram de fora dessa vez…quis começar do basico de fazer todo mundo saber e assumir seu proprio racismo e sua responsabilidade em reproduzi-lo.

  6. Muito bem Elbaaaaa!!!

    Muito lúcido o seu texto. Eu não diria melhor.
    Passei o mestrado estudando relações raciais no sistema de ensino e a questão é de chorar.
    Ouvi cada história triste. Gente que, como eu, viveu muitas situações de racismo na infância – maior parte desses eventos na escola e na rua.

    Eu só quero ver como será os adultos de amanhã.

    bjs

  7. Elba, PARABÉNS pelo texto, e principalmente por despertar momentos de reflexão para todos nós! Acredito que o preconceito esteja sendo muito bem combatido nessas últimas gerações. Temos que lidar com uma série deles, tão importantes quanto o racismo. Por ironia atualmente os excluídos com certeza são a maior parte da população. Se olharmos para um passado não muito distante podemos perceber o quanto já se evoluiu nesta questão. Acredito que a luta CONTRA o “pré-conceito” deva partir TAMBÉM das pessoas que sofrem com ele. Trabalho em uma escola pública onde as vagas são priorizadas às camadas de baixa renda. Existe aqui uma grande quantidade de pardos e negros e ainda assim eles raramente se destacam nos projetos. Acho que o preconceito racial deveria ser trabalhado também entre os negros, porque acredito que muitos deles agem como se fossem injustiçados, coitados, vítimas e nada fazem para mudar esse “pré-conceito”. Cabe aos negros também fazerem sua parte, você não acha?

  8. Existe uma gama de movimentos organizados de negros que lutam pelo fim do preconceito, do racismo e pela reparaçao de todos os danos causados no passado e no presente, inclusive incentivando que se denuncie praticas de racismo, que é crime. Estes movimentos procuram tambem trabalhar a autoestima massacrada das pessoas negras justamente para que elas se comportem como cidadaos com direitos.Entao, os negros fazem muita coisa para mudar os pré-conceitos sim. Agora destaque, sucesso, coragem de se expor por projetos é coisa de quem é encorajado a ser gente, se gosta, acredita em si mesmo e nao tem receio de dar a cara pra bater e isso muitos de nós brancos nao temos…e exigir que negros que sao desestimulados desde que nascem tenham autoestima é jogar para eles uma responsabilidade que é de todo mundo. Negros, apanham na cara de “diferentes” formas desde que nascem e normalmente já “aprenderam” “qual é o seu lugar” ao chegarem à adolescencia (normalmente “aprendem” bem antes disso). Entao, pra mim não se trata de “dar uma de coitado”, é questão de ser irremediavelmente colocado nessa condiçao e de, a partir disso, ter uma dificuldade imensa até de se perceber como cidadao com igualdade de direitos. Na minha opiniao, eles sao mesmo injustiçados, coitados e vitimas e cabe a todos, negros e principalmente brancos, lutar para que eles possam ter muito mais que igualdade de direitos e de oportunidades. Existe uma reparaçao a ser feita por anos de injustiça e violencia (e coloco aqui o racismo sutil como uma senhora violencia). Cabe a nós respeita-los como iguais e aí sim exigir que eles tenham uma postura diferente. O processo é inverso…Não é pedir que eles se deem ao respeito para que sejam respeitados…acho que isso é exigir demais sem termos feito nossa parte.

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